TEXTO
Nomes, peças publicitárias, crônicas e outros formatos.
© Luciano Pessoa.
FRASES / NOMES
A experiência é a única que morde.
Self-promo LP ESTÚDIO, 1993.
O disco de rock mais COISUDO desde Chuck Berry.
Anúncio de coletânea TRATORE na revista OUTRA COISA/RJ, 2006.
Conte com a Sharp.
Slogan para Calculadoras Sharp, vencedor de concurso público da marca, 1987.
Touché! Editorial
Criação do nome e do logo da empresa, 1992.
Techness
Criação do nome e logo da empresa, 2000.
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RESENHAS PARA CDs TRATORE
2004 (tem mais lá na TRATORE)
Adão Dãxalebaradã - Escolástica
Está enganando a quem rapaz? Este CD testamento do Adão é um poema de enxergar e registrar a coisa um segundo antes dela desaparecer. Palmas pros caras, todos eles. Triste e linda mamãe África. Fica soando todo o bRasil que não passa na tv nem na central nem na polícia. Um coração vermelho, um rosto distante como uma viagem que nenhum de nós que estamos lendo isto irá jamais fazer. Brasil e mundo todo dos ninguéns. Mas também, ser conhecido por quem, cara pálida? Responda senhor deus dos desgraçados, Castros, Alves, e os caras, todos eles, todos nós. Vida curta. Boa viagem, velho. Luz negra para sempre embalando o balanço e a bossa deste mundo.
Elza Soares - Vivo Feliz
De um encontro de uma deusa com um grupo de mortais -- à semelhança do CD Agora, da Maria Alcina com o Bojo -- surge esta pérola, pelas mãos do Arthur Joly. Gozado como uma certa frieza eletrônica (cut, paste, repeat) parece casar com a raiva doce da voz enrouquecida. A fria indiferença da cidade, do metal. Machado de Xangô. Espada da Justiça. Lâmina do ouvir e do falar. Deixe que diga, que pense, que fale o que pense, e pense o que fale, e escute o que não quer calar. Quero essa mulher assim mesmo.
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CRÔNICAS
Palavra, terra de sonho
(jul.2007, publicado no blog do AXIAL)
Eu devia ter uns 8 ou 9 anos, o diretor da escola entrou na sala e, de um lado a outro, levando aquela cabeça de ovo e bigode fininho, do alto das suas pernas cinzas compridas de terno, perguntou se seríamos capazes de escrever uma redação por dia, 30 linhas, 365 dias do ano.
Silêncio. Depois virou rotina, escrevia sobre qualquer coisa, se eu fosse uma parede, se eu fosse um prato fundo e outros temas de importância.
Quando a criança começa a falar, quando a fala começa a brincar, que tipo de som vem dali? Pessoa, persona, soar através (da máscara). No princípio, o Verbo.
Palavra peneira, veste as coisas e as conhece por nós.
Confúcio, via Sonia Hirsch, já dizia que a harmonia dos mundos depende da retificação dos nomes. De fato, como nos sonhos, as palavras não nos visitam por acaso. Fio de Ariadne, caminho de migalhas, contam nossa história ainda que sejamos apenas a garrafa. Meus pais, minhas mães, de onde vem o que pensamos, o que sentimos?
A olho nu, como se diz, será possível?
Então somos palavra, pé palavra, mão palavra, olho palavra, como palavra. Umas poucas e cá estamos, de volta ao mundo, diante do caos.
Na canção, história cantada, contada, a palavra dança, voa, se perde, volta com duas amigas e um cachorro magro. No design, raiz latina que agora dizemos em inglês, os vidros e a máscara da cidade. Projeto espacial, colher de plástico, mas o clima, quem vai arrumar? Palavra chove? Onde está palavra? E o nome da nossa miséria?
A palavra se mistura tanto a tudo que é difícil dizer onde não está. E mesmo aí está chegando.
Lembro do Kaspar Hauser (o filme), do poeta de Mindwalk (o filme), de Gregory Bateson (o biólogo), de Joseph Campbell (o mitólogo). A vida sabe a si mesma, a consciência está em toda parte, metáfora de metáfora....
Esses dias a Teca Brito me apresentou aos 'memes', 'memética'. Neurociências, unidades vivas de informação à solta, idéia-vírus... lembrei do William Burroughs na canção da Laurie Anderson..... e fiquei escutando a pergunta....
— Consciência nasce?
Mais memória
Publicado na Revista Mac+, Ed.Digerati, ago.2006.
Tem uns 40 anos, meu pai apareceu em casa com um AeroWillis marrom, ocupava a garagem inteira até em cima, e tinha um quê ainda daqueles carros imitando rabo de peixe. Dava pra levar um monte de gente do lado de dentro, família, amigos, primos, umas 20 pessoas ao todo. Ainda não havia carro popular, e o Brasil era só tricampeão do mundo. Por que uma jamanta daquele tamanho queria imitar um peixe? Não consigo imaginar.
Algumas horas depois vimos a seleção perder da Holanda, o time do carrossel, por 2 a zero, e o Leão, esse que acabou de fugir do Palmeiras, era o goleiro. Não teve culpa. Mas foi a primeira copa que assistimos pela TV colorida, e tinha um botão pra deixar as cores mais fortes. Laranja, bem laranja. Verde, bem verde. O Brasil jogou de camisa azul. E perdeu.
Muito, muito tempo antes que ganhássemos a copa outra vez, eu já era quase um adulto e de vez em quando ia passear no parque da Universidade de São Paulo, lá no Butantã. Lá tem um relógio pregado numa torre, e em volta, no chão, está escrito assim: “no universo da cultura o centro está em toda parte”. Por que uma jamanta como aquela ia querer uma frase como essa em volta de um relógio? Não faço a menor idéia. Nessa época, você ligava o rádio para ouvir rock nacional, o PT era um partido de esquerda, e ninguém tinha computador em casa. Mas o meu amigo Maurício tinha. Ele falava a língua do bicho, e depois foi trabalhar numa loja onde conheceu o Bill Gates pessoalmente. Na época a tela do computador mostrava duas cores: fundo preto, texto verde. Tocávamos em uma banda chamada Confederação Indo Pelo Corredor, e um dia o Maurício me mostrou um programa que gerava palavras. Uma das palavras era DARDERTEDRIMPA. Não sei porque, nunca me esqueci dela.
Foi um ano antes que a América se curvasse ante o Brasil, com aquele time que empatava os adversários, que comprei meu primeiro computador. Empatar deve ser um gesto com a pata. Tinha o Dunga, que batia com a testa nos companheiros de equipe para mantê-los acordados. E o Parreira, que é uma árvore que solta as folhas no inverno e permite que o sol ilumine as plantas mais baixas, como a grama. O meu computador era um garboso Macintosh IIvx, com um monitor colorido que mostrava várias cores. O Tony estava fazendo o primeiro número da Macmania, e levou a capa para ver em cores lá em casa, nesse monitor. Aquela capa com o índio usando um powerbook. Nessa revista tinha um anúncio do Quadra 605 por U$2,720, e a primeira mulher seminua aparecia só na página 6, e era um desenho. Um bom desenho. Fiquei pensando em como o índio faria para manter o hardware atualizado, em como ele faria para conseguir tanto dinheiro, e também no upgrade que esse powerbook representaria na vida sentimental desse índio. Assim, pensando nisso, foi que continuei usando computadores ano após ano, computadores cada vez mais lentos e obsoletos, e sonhando com computadores cada vez mais potentes e belos.
Mês passado, meu pai, com 84 anos, fez uma cirurgia de catarata, que é uma doença em que o olho fica branco como as cachoeiras de verdade. As lágrimas não derramadas cristalizam dentro do olho e vão formando um véu, que é para proteger a pessoa da tristeza que encontra nessa longa estrada da vida. Na cirurgia eles trocam a lente do olho por uma novinha, só que não é natural. Não saiu de dentro do corpo, nem de você, nem da sua mãe, nem de nenhuma pessoa que você conhece. Leva um tempo até a pessoa ver a coisa com outros olhos. Eu, com 43 anos, talvez faça essa cirurgia este ano, ano que vem. Nos últimos 14 passei umas 28.827 horas e meia olhando pra essa telinha. Terá tido alguma influência? Difícil afirmar. Os relatórios médicos são inconclusivos. Os hotsites sussurram palavras como extremo poder, riqueza de detalhes, e toda a liberdade da imaginação.
Daqui a 40 anos talvez não haja mais nenhum urso polar, e o computador nasça junto com as casas, como a água que sai da torneira. Talvez a catarata, a dor de cabeça e nas costas tenham tirado umas férias. Mas como disse uma vez o Darcy Ribeiro, é preciso estar atento, sempre, como os índios, ao que acontece, em nós e ao nosso redor. Mas atento a que mesmo? Assim que lembrar eu mando um email.
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MANIFESTO
Mergulhamos em supermercados, superprodução e superconsumo. Mas quase nada escapa da superdestruição.
Se a máquina quer saber quanto vale o show, possivelmente ainda serão a ética, a ecologia, a convivência, a simplicidade, o que pode nos lembrar onde está o chão.
De manifesto LP ESTÚDIO, 2002.
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